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domingo, 13 de dezembro de 2009




estou tentando livrar a cara do medo
mas ninguém vive sem furtar coroas o presente


[e uma risada embasbacada de desgosto.




terça-feira, 10 de novembro de 2009

eu [ou como se quase diz o que se sente.]


.,



Tanto o peso prendia o passo no instante mais,


uma brás ilha que se alagava, mas não movia monumentos,




soltei as amarras e flutuo.


N'um céu de mármore e grama,


caminho o tempo, antes que o tempo me encaminhe.





A falta,



J..

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


aos cegos,
que sentem mais
do que veem



"E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentava a queda no vácuo."

A maçã no escuro - Clarice Lispector



"O meu apartamento fechava-se como um punho.
Eu tinha visto o cedro fincar-se no cascalho e salvar da morte o leque de ramagens.
O cedro, que combate noite e dia, na sua própria densidade,
e se alimenta num universo inimigo dos seus próprios fermentos da sua destruição,
nunca mais tem sono.
O cedro a cada instante se funda."

Cidadela - Antoine de Saint-Exupéry




I

MORO EM TODOS OS LUGARES


Tenho
a dizer em minha defesa que desde Maria não durmo.

Não carece saber meu nome, apenas que não durmo. Experiencio a defasagem temporal de 24 horas que se repetem e se repetem e se. Já não sei o que houve. Se por algum instante iminente saberia. Maria se foi com a verdade. E eu sei que em tudo eu quase sei.

A primeira vez que a vi, reparei em seus dentes, grandes, brancos, pingavam leite, queria bebê-los. Quando sorria, seus lábios vermelhos de tal rubro estranho que nenhum batom pinta, nem a rotina encontra, eram coloridos pelas horas. Pareciam esbanjar a felicidade branca do que guardavam e era inacabável. O sorriso sorria Maria fatorialmente. Meus olhos eram embebidos em simetria por cada resquício de branquidão. Lembro-me bem que, antes de me cativar, sua boca fazia questão de enrugar as quinas do rosto, espremendo rubro sobre rubro, já uma dança, tango, devorava-me a própria visão.

É mais que um bilhete roubado, não são as direções dos trilhos do trem, muito menos os sentidos que me importam. Posso estar em Viena, no Jalapão, embaixo d'água, no Ártico, no espaço, morto, que ainda o que meus olhos veem ou viam ou veriam está impresso em minha retina, a última imagem, os dentes de Maria.

Mas não. Não. Poderia ter esquecido de todo o resto a partir deste instante em que na sala 207, quando o relógio já trombava entre as horas e os minutos, a moça de véu veio ao meu encontro. Alguém diria que sua origem era muçulmana, porém um observador mais atento logo entenderia a sua paixão por tecido que plana. Os cabelos tentavam se esconder embaixo das linhas de algodão, mas a brisa que vira arremessava o conjunto para cima. E então. Somente então, eis que vem vindo, as covas, as mãos apreensivas tentam conter o véu de partir, os passos se interrompem, ela me mira de uma olhar que vem baixo e se ergue, as bochechas já róseas,
sorri.

Creio que nesse dia o céu se recusou a tirar as nuvens para dançar, por isso o vento úmido, abrigando os passos, como rosas encaminhadas, pétalas que se arregaçam, sinto que o mundo de Maria se abre neste enquanto. Ela se aproxima lentamente, tento imaginar o que procura, posiciona sua mão sobre a minha, segura-a, aperta, e agora me olhando
diz.

Esperava e continuo esperando que meu olhar dissesse de volta, mas talvez sejam besteiras que as ventanias contam aos sábados, apenas para nos advertir que todos os domingos são dotados de marasmo e solidão.

Algumas vezes os sentidos nos pregam peças, até hoje eu não sei se o que foi dito era um pedido ou uma sentença, embora tenha sido o suficiente para me arrancar da sala quase ensolarada, quase escurecida, por folhagens de cerejeiras da praça principal. O corredor que se segue porta afora, aquele mesmo corredor de todos os dias, se tornou parte da minha história dentro da que Maria haveria de contar.

É disso que tudo se trata: uma história. Nunca saberei se ela o fez para se livrar ou me amaldiçoar. A verdade é que o fez.

Certas pessoas possuem uma mania peculiar, indizível, algo arbitrário, nascem com isso, vivem ligando os outros a elas. Ninguém entende bem o motivo, se pelo jeito de se portarem, os detalhes, se buscam sempre estar próximas dos abismos alheios ou se simplesmente arrastam minunciosidades por onde passam. Eu estava completamente ligado às suas mãos, tal véu, encurralado, não foi difícil me convencer a adentrar aquele bar de mesinhas em xadrez, bastou que me mirasse.

Céus! Como se seus cílios amarrassem os meus!


Pois se sabe, quando a pertubação é tão grande, os olhos se recusam a fechar e quando fecham é para permanecerem acordados.


Depois que nos sentamos, tive a certeza de que ela não fugiria a qualquer instante - na verdade não tive a certeza de nada, mas quis me enganar que sim -, ao menos não ali. O lugar se assemelhava a um comum botequim dos anos 50, fora o fato de que também era uma sorveteria. Entre os golpes toscos de cachaça, crianças e seus avós embriagavam-se de açúcar em potinhos de neve, todos os risos eram bêbados.

Guardar histórias no bolso da camisa, na sola dos pés,... Ah... Tive a impressão de que quem frequenta essa iguaria guarda mesmo histórias embaixo das unhas, discretas, doloridas e grifadas em carne viva.


"É longe". Foram as primeiras palavras de Maria.

E finalmente deixou que o véu escorresse por cima de seu colo.



sábado, 4 de julho de 2009

: há,


http://www.flickr.com/photos/dcdead/

como que um pedido, o sopro. delicadamente folha a folha se eriça até seus pés. os olhos cerrados só percebem a luz rarefeita deixada pelos cílios que se erguem. um chiado, o vento toca o campo com notas de pressa e sossego. o frio lhe serve de desculpa pra cravar as unhas de braços entrelaçados na pele. as rugas dos olhos que não são de idade expremem célula por célula, uma sobre a outra, apaixonadamente, fazendo da visão um limão partido, em que seus gomos são forçados a se compelir e, na desistência de se deixarem, liquefazem.

Maria, Maria, se a solidão só destila fraqueza...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

http://www.flickr.com/photos/jup3nep
e o ar golpeia tanto, entre os dentes, a língua, um tato dentro do sabor, antes de sibilar, um sopro, não, um gole, quase galope, golfadas de atmosfera pelas narinas
: eu emudeço. porque não dizer é dizer mais. para si, o som reverbera milhares de vezes e sentencia o infindável. minha maneira prodígia de tortura

sábado, 20 de junho de 2009

título omitido


Bem que pensava um tom a mais, um toque a menos, tremeluzentes vão-se os dias, o que o todo forma não é por exato o que o todo é. Iurick soube antes, não haveria de ser inteiro, mas eternamente parte, o imutável bateu a sua porta e não arredou o pé.

Maria, minha querida Maria, por que nos faz de tão tolos mais tolos sermos?

Ele tocou seus fracos pontos, nós que já desatavam e pediam nova costura, entregou gotas do frasco que bebera até o quase fim. Cecil tinha Iurick contra os lábios, seios, mãos, pernas, cabelos, pés, a um metro de distância.

Insistiam em controlar o peito, mas, descompasso, não seguravam o bater, nem por intermédio, por que, Maria?, queriam resistir, por que não os deixou?

Sem saber que em verdade logo cada qual escorreria pelos dedos, onde sempre estiveram, em posição de escape. Eles ultrapassam as barreiras do espaço e atropelam o tempo, que insiste em favorecer a velocidade dos ponteiros, mas engana-se quanto ao momento, já que este é físico, possui tempo específico, a duração é minha poeticidade.

A lembrança que vibra nos ouvidos de Iurick não é a mesma no paladar de Cecil e nenhuma delas condiz com a de um observador inercial. O gosto do azul da sua voz percorre abismos alucinantes no som claustrofóbico do seu quase toque hermético.

Maria, alguém disse que no presente vivemos o futuro, mas algo me elucida que no futuro vivemos o passado.

De peso e leveza ficou todo o empuxo, como pode um navio flutuar e uma bola de chumbo afundar? Sabem tanto como nada sabem. Nunca vos importou a força gravitacional, somente o meio, porém disso apenas Maria conhece e omite. Iurick e Cecil nunca se distanciaram. As diferenças que os cercam foram as mesmas que os mantiveram iguais. A couraça do coração que descasca, no tempo específico, se iguala ao coração que nasceu descoberto e endurece.

São dois corpos colididos, mas propagam-se em ondas. Fincados no chão, permeiam seus espaços. Ela que é invadida por ele o invade e são.

Ah, desejo das estrelas, a morte só aparenta imagem no futuro de outrem. Por que até mesmo a luz sofre barreiras em percursos infinitesimais?

Se ao menos pudesse escrever uma sinfonia de cores, tocaria movimentos. Maria, Maria, sabemos que estão envolvidos pelo éter dos que se encontram e viver é mais puro que o vácuo e sua fragrância é destilada.

Estou lhe escrevendo, Maria, e escreverei pelo resto dos dias.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

breve nota da lapiseira maluca

ando tentando criar personagens mais parecidos com a minha realidade, quero dizer, sinestésicos.
avisem-me se estiverem intragáveis(!).

domingo, 14 de junho de 2009

sois (em) g maior


- , ainda resiste, Nyala.

Esnobando a indiferença das pálpebras que caem para não encontrar o que agora encontram, soergue-a pelo queixo e abusa de sua retina, contraindo pupila adentro. Fá-lá-se mirar Nyala.
É muda, carregada de verbetes que os dicionários tentam calcular progressões infinitas ca la das, mas Nyala finda. Só Nyala finda, ninguém pronuncia o que Nyala impronuncia. Girau a segura, punho a dentro, hermeticamente pensa que pensa o que pensa. Girau deseja tocar Nyala. Deseja senti-la, mas seus dedos não ultrapassam o projeto de casca que finge se guardar.
Ela força o corpo dele para se desvencilhar, afasta, e, enfim o fita, laço de fita, ele a prende no iminente andar. Era uma tortura, afinal, amá-lo em cores, mal ele saberá e melhor que esqueça antes que tropece em sua profundidade magnética, 'mundo, mundo, vasto mundo'.

- . E não será, Girau, o irresistível,

sábado, 30 de maio de 2009

Maio


Depois de cruzar os dois abismos dos pés, entre as solas dos sapatos e o espaço que os desune. Cruzar tão infinitamente que reside. E do que foi nada permanece inteiro, fiapos trocados, um mosaicosemfluido, descontrolados, osmoses interrompidas. Depois, bem depois, que um segundo é mais denso que uma vida. Longe de breve, perguntas recorrentes se calam. Não queria respostas, pontuações, colóquios. Obsessivo demais para um banal fim. Desarma, patas que desarticulam, peito que desabrevia, des-conhece des-maio.
Agora, perto, atinge a distância imensurável do que não se controla. Pânico, escorre pelos dedos, viscosidade inválida, não prende, não guarda e no entanto valeria mil abismos. Não é amor, nem ideologia, é dilema. O caso é casado com o descaso do que na verdade descasca. Diz casca, onde deixou meu vínculo que não enxergo a não ser na escuridão da pálpebra cerrada? Diz! Porque o que sinto sinfonia. O que ouço se move e o que se move se colorimetria. Mas que parte existe e qual outra se cria?

domingo, 29 de março de 2009

Abisséu

desenho: http://deleitecomvagalumes.blogspot.com/
Peco com o sangue dos pés, um alastro de caminho, ruptura. Esqueci que a solidão favorece o descanso do medo. Mas seu desuso pode ser fatal.

É essencial temer.

O quê? Não sei.

E o que digo pode nem ser imbuído de verdade. E não é.

A verdade reside na mentira, a partir do milésimo de instante em que não é absoluta.

E se segurar sua mão significa mais a outrem do que a nossa universalização de encontro, então é melhor que não se vejam, que não se toquem, nem acenem. É melhor que minha idéia corra da sua. E uma sinapse sofra regressão.

O que é talvez a coisa mais estúpida que eu vim dizer nessa caixa de texto.

Mas para alguém que antes se escondia atrás de um caderno e por enquanto se esquiva atrás de números, talvez o melhor seja voltar aos mundos internos. Onde a solidão é só um acompanhamento provisório.

Os papéis de tanta inversão sumblimaram, e agora gotejam,


e agora.



Se quiserem me encontrar digam a eles que

a b i s s e i.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Assalto à-moral

http://flickr.com/suzen

Num brechó localizado no centro histórico do Rio de Janeiro, havia duas cadeiras. A primeira oriunda de um burguês falido do Leblon e a segunda da família de um traficante morto. Entre os burburinhos das pessoas, elas conversavam:

- O centro tá cheio hoje, hein?
- É...
- Acha que vão te comprar?
- Quê isso, bróder, tô acabadona e tu?
- Ah, sou muito cara e não vejo socialites por aqui.
- É, tá loco, mano, medão de ser assaltada ou morrer.
- Verdade.. Como que era lá no morro?
- Fogos de artifício e tiro ao alvo sem prendinhas. E lá no aparti?
- O garanhão não trabalhava, vivia de herança, mas depois de tanta amante perdeu tudo na justiça.
- Sei como é... Ah, nem... bem que podiam tirar a gente do sol, né?
- ih... Olha lá o tipo, hein?
- Tirou uma nota de cem, mano, burguês vestido de tráfico.
- De vez em quando, eu acho que eles são um povo só.
- E são, mas fingem que não.
- Olha o arrumadinho, aí.

"Assalto!" "Assalto!"

Roubaram tudo e as cadeiras foram quebradas.

Tatuagem

http://www.fotolog.com/de_oleacea

Caminhando com uma caneta no bolso, eu sento na calçada e penso nas milhares de histórias que ela pode contar. Seja rabisco ou palavra, signos novos e velhos, guardados na tinta e na mão de quem escreve. Pelas madrugadas, enquanto essa crônica é construída, eu entendo finalmente o caso de amor do papel pela cor que a caneta de fina ponta o corta metaforicamente. É um caso que o o Homem induz e assiste, porque não podia viver sem.


Na imensidão do Homem existe um abismo que só pode ser visto sob a óptica do risco no papel. Que nem sempre foi papel. Foi pedra pintada por antigas civilizações, outras vezes entalhada. Até chegar na forma branquinha, houve um caminho árduo com papiros e pergaminhos. E não pôde ser a bruta mão humana quem continuava a pintá-la, dedo a dedo, ou um pedaço de pedra, primeiro veio a pena. Com ela, tinteiros se derramaram de cartas, petições, notícias, livros e desenhos.

Caminhando com uma caneta no bolso, eu carrego a obra prima da tradução da humanidade, lei a lei, regra a regra, linhas permeadas ou não de poesia. Quem olha de longe, tão comum, pensa, " é uma moça com caneta no bolso", "só". Mas dentro do tecido da minha calça cabem coisas incabíveis, que conseguem apenas transbordar para o mundo. É por isso que passo noites inteiras de insônia com a mão coçando. De tantas idéias saltando, elas escorrem e fogem do tempo de riscá-las no papel branco.

Branco, como milhares de cores juntinhas e girando rapidamente. Entre pilhas de guardanapos e chamex, as paredes da humanidade soerguem nesse abismo louco chamado linguagem. Discurso a discurso, o papel segue o curso que a caneta comanda, num rio de tinta de correnteza, que a mão realiza por não conseguir deixar de ser parte. E nesse depende-e-depende, o Homem não vive sem a caneta, nem ela sem o papel, assim como o papel não tem sentido sem o Homem.

Caminhando com uma caneta no bolso, eu sou Homem e papel, e, papel e Homem, me rabisco.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Záaaaaas




Penso mesmo que mulher é feita de chumbo,

chora só pra fingir que não é forte.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

com fome de vazio



Jéssica anda...


desanda.

domingo, 30 de novembro de 2008

foto: wadegriffith
Coloridades: - Jéssica mandou dizer que sente falta de vocês. E que logo estará de volta, falta só uma semaninha para o tal do ita e a segunda fase da ufg. (!) Travessuras.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Entrefolhas.


"Antes de volver a dormirme
imaginé (vi) un universo plástico, cambiante,
lleno de maravilloso azar,
un cielo elástico,
un sol que de pronto falta
o se queda fijo
o cambia de forma."





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Visitar a sua cidade natal, mesmo que você a freqüente em 15 e 15 dias, pode ser um tanto estranho ou, quem sabe, pertubador, se, há mais de seis anos, alguns meses, outros dias e muitos segundos, você não volta àquele específico lugar em busca da pessoa, justamente, a pessoa, que já se sabe o desparadeiro. Quero dizer, ontem, isso, ontem, eu rumei pr'aquela bendita instância, buscando as respostas que conjeturam aglomerados de perguntas, desencontradas em qualquer outro posto avançado. E é esquisito como que, por mais que a cidade cresça, aquele prédio de finanças continua com o mesmo cartum desgastado de 30 anos, um bonequinho de nariz gorducho e corpo no formato de bacilo de Koch. Na verdade, esquisito é se lembrar perfeitamente como que, em torno dos 8 anos, adorava aqueles olhos esbugalhados que talvez me provocassem um riso frenético.
Hoje, não mais.

E as caras das pessoas, antes tão familiares, já o são tão disformes. Em seu conformismo, povoam as ruas, deformam a paisagem antiga que eu procuro. Procuro. Nada. Será que errei o caminho? Disfarço, olhando de rabo de olho nas placas das ruas, os nomes idênticos, tento me convencer que não, mas a rachadura, no canto esquerdo, no endereço da casa da rua principal, não deixa esconder o fato de que fui eu quem a causara.

Por incrível que pareça, perdida, no meio do subúrbio, existe uma mata particular, não tão densa quanto uma mata deve ser, mas mais densa que qualquer mata de significado. Atrás dos portões de madeira rústica, escondia-se um senhor e sua senhora e ao pé da cama uma dama da noite. Escondia-se também o senhor dele mesmo no meio de muitos livros. Escondia-se tanto que tinha receio de deixar a porta aberta, lá fora era só sua senhora, dentro, não era ele nem sua senhora, era capítulo, tinta, pólen e pena. Interno, podia confessar todos os pecados de quem quer que fosse, picá-los, despicá-los, misturando-se, enfim, aos sonhos. Sonhava com fragmentos de muita gente. Queria ser capaz de unir mundos, chocar mundos, fazer terremotos, mas para isso só tinha palavras. Signos de diferentes origens, tanto figuradas quanto geográficas, uniam-se em discursos sonoros da brisa que roçava as jabuticabeiras e amoreiras.

Cuidava da sua horta aos fundos como que dos filhos que já haviam crescido. Cuidava mais por esperança, as plantas tendem a nos obedecer. Embora gostasse mesmo era da bagunça, raíz que infiltrava por todo lado, folha seca que só o vento tinha permissão para levar, flor nova, flor jovem, flor passa, o tempo em tudo.

E eu ali.

Era o quê, meu Deus? Talvez me encarregasse de que as folhas não seguissem sempre a mesma ventania, trocando-as de lugares com meus pés de curto mundo. Talvez alguém que tinha muito medo e o matava de pouco para não fazer sangria. Talvez caminhasse com mais certeza de que hoje e só lamenta ter deixado velhos esconderijos, que de tão bons nem assim eram chamados. Eram mesmo seus segundos lares, enquanto que quem visse de fora mirava apenas uma menina quieta no meio de muitas, muitas, plantas e uma conseqüente reação alérgica que levava sua mãe à loucura. Podia ser empolação de tanto contato inseticídeo ou falta de pudor ao abrir uma porta no chão de um xalé, abaixo de um tapete vermelho com desenhos azuis, onde se escondia uma adega e muito mofo evidente.

E ontem.

Ontem, eu fiz questão de usar o sapato mais baixo, o short mais curto e a blusa mais cavada, só para ter a certeza de antes, ao me esparramar por aquela grama, em que cada poro à vista fosse irremediavelmente acometido por brisa, bicho, empolação, livro, mofo, adega, rubro de amora-madura, esconderijo, pitanga, pedras gigantes e lisas, o senhor e sua senhora. O que pode ser algo que o cartum de 30 anos remeta a uma pessoa ou um pé de figo invisível ou órion ou um endereço riscado ou um texto bobo feito esse.

É que, inebriados nisso tudo, ficamos nós entre o tempo.

Ficamos nós entrefolhas.



sexta-feira, 31 de outubro de 2008


y aquel que mira afuera
ni acredita
que aquí se guarde
las puentes
para más de dos mundos

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Até a terra dos medos (parte 1)


Sugar Rain...................Sugar Snow, upload feito originalmente por ƒreg.

"el uno en el pucho del otro, nos frotábamos con los ojos, estábamos tan de acuerdo en todo que era una vergüenza,..."


(o primeiro no resto do outro,
nos esfregávamos com os olhos,

estávamos tão de acordo em tudo

que era uma vergonha,...
)




Andava apressada naquela manhã chuvosa de novembro. O coque mal permanecia intacto e as mechas lisas teimavam a escorregar de encontro aos olhos. Nem tivera o tempo de mirar o amassado corriqueiro na barra do vestidinho branco. Ajeitou a cruz vermelha em chapéu e rumava para o asilo. Acordara tardiamente ou eram seus pés pequenos demais para o chão em tão curto enquanto. E esse guarda-chuva (!). Que guardava mais chuva que ela. Cada gota a fazia mover com maior freqüência, meio que a se enganar que chegaria límpida - e pronta o suficiente para não perder o emprego.

Agora via o portão entreaberto no qual a água ricocheteava, respingando no seu rosto. Preferia ignorar qualquer erro, pensou, quase tomando as grades azuis descascadas com o punho esquerdo. Menos aquilo. Um corpo, quase um homem, solapara no asfalto, arrastado pela jorrada, vindo bater na grade dois metros ao seu lado. Caminhou na sua direção. Sangrava, mas seus olhos continuavam absortos, não aparentava dor. Apoiou-o em seus braços e enquanto adentrava o asilo ele parecia não se importar. Na verdade, parecia mesmo nem notar a sua presença, como se ainda estivesse sendo levado pela chuva.

A sombrinha entrou guiada pela corrente de água no nicho que a porta aberta deixara, batendo nos pés de um idoso.

-Belinda, você voltou?

-Não, Serafim, sou eu! Preciso de ajuda, vá chamar os outros enfermeiros.

Ela pegou a maca já em desuso, devido aos mínimos acidentes que ocorriam, e o depositou. Guardou-o ali como se fosse uma caixa perfeita. Geometricamente perfeita. Olhou em seus olhos outra vez. Lembravam vidro. Será que havia perdido muito sangue? Não, Não... tinha certeza de que o trouxe o mais rápido que pôde. Foi chegando mais próxima do rosto, devagar... Encostou sua testa na dele. Piscou.

-Eu não sinto nada.

Esborrachou apavorada e desconcertadamente, ele tinha alma afinal.

-E só agora me diz que vive? Como não sente?
-Tenho CIPA, não sinto dor.
-Oras, mas supostamente você deveria sentir ao menos a pressão do toque.
-É, creio que minhas fibras de compressão atrofiaram ou de tanto só sentir esboço, esqueci de apontar o lápis outra vez.
-De qualquer forma, não sairá daqui até cuidar desses ferimentos... é.. hã...
-Ernesto.

A enfermeira sorriu.

-Os outros devem estar a caminho.
-Obrigado, Marcela.
-Por nada... Ah!Como sabe...
-Quem não sente nada, ao menos alguma coisa tem que enxergar.
-O quê?
-Seu crachá.
-Já tinha...
-Eu sei. Pode ir, não se incomode.

Saiu atrás do seu guarda-chuva, um tanto embarassada, sabendo que teria que ler novamente a mesma história para o Senhor Carmela. Já se estranhando, trouxe a esse asilo a entrada de duas almas - temporalmente avessas.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008


O silêncio da chuva. Começa com a primeira piscadela de uma gota para o chão. De pouco, indivíduo a indivíduo se esconde. Embaixo d'uma folha, dentro do tronco seco, num buraco, uma casinha de barro, paredes de concreto. Animal, monstro, homem, quando o friozinho do vento úmido chega, hiberna numa toca em busca de aconchego. O lado de fora vai ficando um tanto mais quieto, dança do abandono de água e ar. E quem se atreve a desbravá-lo sente o barulho do seu passo acompanhado. Para tanto, que sente que não emite som, nem chuva, nem vento. Sente mesmo é o barulho da calma; ouve no tempo um silêncio sem solidão. Quem tem coragem enxerga num vendaval, por mais danoso e urgente de fuga, um refúgio. Quando todos se guardam por dentro, ele se encontra na casca. E essa casca é a coisa ainda que não se vê povoada de som, é o silêncio da chuva e o carinho do vento. É o meu desespero esvaziado pela fuga do mundo. Esvaziado, o mundo, pela fuga do espero. Mas a corrente de ar não dá passagem, não agüenta, rasga, atravessa vestida de chuva. E eu?...

Dispo o vento.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A-pesar


Nasser caminhava pelas vias do fórum em busca da mecanografia, precisava de cópias de um processo pelo qual indiciou uma empresa. No caminho, via sua imagem refletida nos espelhos do Hall, esse não podia ser ele. Lembrava-se fielmente dos lindos cabelos que escorriam pelo rosto, que agora haviam sido tomados por uma calvície irreparável. O que mais lhe incomodava eram as rugas, sempre tivera um rosto tão rijo, para onde ele foi?

Parou de súbito ao perceber que quase trombara com a fotocopiadora. Sentiu que finalmente solucionara sua charada existencial: queria ser uma fotocópia de quando era jovem. "Por que é mesmo que isso devia se perder?", indagou-se. A esposa já não era a mesma, nem mesmo os olhos, aquele brilho de recém-casados envelheceu com o resto do corpo, com a alma.

Semana que vem faria 50 anos de idade e 30 de casado, já com as cópias nas mãos, talvez devesse comprar uma jóia para Alin, ela merecia por ter agüentado este traste. Já não é mais tão bom na aparência, no conforto, muito menos no sexo, não sabia como ela suportara. Nem Nasser se suportava.

Teresa o interrogou no caminho de volta sobre algo que não deu ouvidos, talvez esse fosse o motivo pelo qual batia freneticamente na porta de vidro da sua sala agora. Abriu a porta. "Diz". Ela o fitou de cima em baixo, os mesmos sapatos, o mesmo terno, a mesma gravata surrada de sempre. "Eu não acredito que você se esqueceu..." Mas é claro que iria se esquecer da festa "surpresa" para aniversariantes do mês da empresa. Era sua sentença de morte, do quão mais próximo ficava dela.

Virou as costas, deixou Teresa gritar, deixou o escritório na lista de espera, precisava de Alin, ela sabia dele, de antes, do brilho fosco e envelhecido. Tomou o volante nas mãos, fez curvas bruscas, tais como as que nunca ousara fazer durante a vida nova. Abriu o portão, alcançou o quarto de hóspedes, ela continuava lá, naquela maca, imóvel, muda, com aqueles olhos absortos. Beijou sua fronte. Nasser sabia que ela não o via por fora, mas ainda inteiramente por dentro. Para ela, Nasser não tinha rugas, nem calvície, tinha saudade.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Precisa-se de

foto: http://flickr.com/narlik


tubarão disposto a me decapitar delicadamente conciso.

frizz: delicadamente conciso.



sábado, 11 de outubro de 2008

Em 1977

" Clarice Lispector: - O que mais lhe perguntam?
Lygia Fagundes Teles: - Eis o que me perguntam sempre: compensa escrever? Economicamente, não. Mas compensa - e tanto - por outro lado através do meu trabalho fiz verdadeiros amigos. E o estímulo do leitor? E daí? "As glórias que vêm tarde já vêm frias", escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente. "

(o Rodrigo merece ouvir isso)

~*~


Diretamente dos confins dos meus miolos para vocês

o primeiro livro deliciosamente ilustrado:

http://seessahistoriafossesua.blogspot.com

terça-feira, 7 de outubro de 2008

volteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei (:


Emanuelle

não desejou escorrer dos olhos dele
mas que culpa tinha?
se a partida goteja saudade.

domingo, 28 de setembro de 2008

olá, minhas caraminholas! (;

Não, não trago notícias da minha boa volta. Nem vou perder tempo dizendo o que vocês já sabem...
Trouxe mais uma mini-leva de poeminhas de bolso:


"
De Casco

Seja casulo ou carapaça
na cabeça do poeta
só existe um dilema
sem cruz ou espada:
asa ou caneta, eis a questão? "

~*~

"
Lamber o céu com o suor dos dedos

(Os Acordes de Deus) "

~*~

" O corpo movia-se tal como uma pena de chumbo, fomato de sonho e peso de realidade. Pé ante pé, a brisa viscosa escorria pelos seus dedos com frieza. Não era bom em avistar, mas ao longe um poste se apagava. Mania popular de achar que é mau presságio, Técio discordava. Preferia acreditar que um feixe de luz muito forte, provavelmente de um corpo estelar terrestre, atingira a foto-célula. Sua racionalidade lunática pensava que cada ser emitia feixes de luzes, alguns muito especiais, do tipo que só se encontram em nebulosas no meio do universo negro. Tinha ganas de desenvolver um foto-receptor só para alcançá-las. Se fosse possível guardar luz em frascos, catalogaria em código morse uma biblioteca inteira de áureas.

(ainda não sei o que fazer com isso no livro2) "

~*~

"Primeiro olhou para si naquela posição fetal, vasculhando a vida alheia feito criança curiosa. Depois o degrau. O seu número, mas não era seu nome. Será que podia... ou era evasivo demais? Já tocava as letras, antes mesmo de pensar se certo ou errado, tocava... To... ca... va...
Ilana se deliciava com cada canto de versátil aspereza, o cume ou vale de signos, que, confusamente, sentia que eram seus. Tomar posse ou não, no fundo somos todos uma salada, uma progressão de infinitos termos que se misturam aleatoriamente em seres que podem ou não se conhecer.
Bateu. "

~*~

Nada de superhiperultramegapowermasterblaster, mas é que achei que devia retribuir as visitas caridosas. (:

Recados:

-Evy:Flor, quando saíremos eu, você e o Rôs?

-Rôs: Continuo gostando dos seus comentários em branco.

-Solin: Como anda a leitura do livro? Espero que esteja entendendo, não pude te acompanhar como queríamos... Mande-me sinais de vida.

-Márcio: deep, deep. Desculpa minha ausência. Continuo estocando o feijão, bróder. Nosso pf não vai ficar sem haver.

-Odranoel: Querido, obrigada pelas recentes visitas. (:

-Luiz Felipe Leal: É um prazer te ter no blog, mesmo com duas palavras. hum! Tenho uma leve e consistente impressão de que conheço a música do seu site de verbo reflexivo. Achei bonito o espaço. Lau disse que estava em busca de material, vou mandar umas edições de jornais próprios e amigos, todos independentes. Espero que goste.

-Paty: Volte sempre. (:

-Anônimo: Seria muito óbvio perguntar quem é, certo? Muito grata.

-Luna:Uma flor para você.

-fantasmas: "Eu seeeeei que vocês ainda me habitam", berrou coloridades, o blog-aprendiz.

domingo, 24 de agosto de 2008

Ai, eu sei...

Tem um quarto de século que eu não entro aqui. E dói. Terceiro ano é uma coisa chata, faz você se esquecer de si mesmo, tentando se lembrar o tempo todo. Decisões. Aquele puta primeiro passo para arcar definitivamente com todas as conseqüências e responsabilidades que surgirem. É, é, é. Pelo tempo que os senhores e senhoras me lêem, sabem que por mais que eu enxergue as diversificadas cores do mundo, sei muito bem quando tudo fica pesado, forte, escuro e decisivo. A fantasia e a realidade possuem limites coexistentes e ilimitados. Mas, fatos, em uma tela branca quando se permeia de uma cor muito escura, por mais que se jogue branco, cores pastéis, ela reside. Uma tela ter esse marco constante pode ser bonito; ou não. Depende do que você transforma, da sua intenção. Pode depender até mesmo da velocidade com que é feito o traçado de tinta com o pincel. De tudo.
Que seja. Para completar a tríade de carga horária excessiva, dúvidas escabrosas e provas ordinárias, me mudei. Quero dizer, de casa, endereço e telefone. Opa! Vejamos, sem telefone. E internet só com lista de espera no condomínio. Então, nem as madrugadas me deixam postar coisas. Sim, estou com saudades. Dos melhores comentários do mundo, mesmo que vazios, mesmo que sem signos, sem nome. Esse blog guarda muito de mim. O resto... Ah, o resto! Fica nas pessoas, nas gavetas de papéis e fotos, na biblioteca.
Talvez exista um pouco de mim em um cd,.. Mas só se fosse o cd. O cd que fosse só do Bruno... Ultimamente, ele que musica tudo meu. Tem vez que só me traduz. Tem vez que ele diz tudo e acha que não disse nada. Tem vez que não tem vez nenhuma e é aí que tem. E nem é caso de amor. Quem sabe? Amor tem lá suas variadas formas. O Bruno distante me entende de perto. Poucas pessoas fazem isso. O que inclui a Evellyn, o Rodrigo e o Márcio. Batendo asas, em silêncio, malemolente e ácido, nessa ordem, eles fazem meu mundo.
Outro dia, escrevi um texto de nome "Tatuagem", só aí que eu entendi onde que me cabe com eles no mundo, entalhado em braille na carne viva:
"Caminhando com uma caneta no bolso,
eu sou Homem e papel;
e papel e Homem,
me rabisco."
Obrigada, Eu (me) (ch)amo vocês.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

(escrevi para alguém)

mas acho mesmo que, vendo a vida como uma torcida, a gente carrega no peito a única que consegue nos carregar. nesse fecha-e-abre válvula, bombeia no corpo o meio que faz na íntegra o motivo de levantar em cada tropeço. e, quando tudo isso pára, é como tirar a chave da ignição, o calor escapa e por dentro fica frio e seco, restando só na lembrança de alguém o constante fecha-e-abre que existiu outra vez.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Confissões de um diário


Às vezes o(me) sinto como a poeira dos meus(seus) móveis. Acumula sem eu(você) notar. E, quando percebo(e), tiro(a) de lá com um pano úmido. Menos que um travesseiro, é(sou). Apenas mera pluma que favorece o encosto, mas nunca presente nos meus(seus) fetiches.

Tralhas

Em época de mudança a gente acha cada coisa... Meu quarto é um vale de papéis e quem me conhece sabe que eu estou sendo bem generosa, existem vales, picos, fossas e erosões de papéis ali. Guardo para cada ano um caderno, quando não dois e escrevo em guardanapos, paredes, papelão, papel higiênico, qualquer coisa, se o esqueço. Encaixotando todos os meus livros, que reunem mais de trezentos títulos (em ordem alfabética por escritor), e esvaziando minhas gavetas atoladas de coisas, arquivos e possíveis livros, tudo à mão, todos os meus originais, encontrei algumas coisas de que gosto e me esquecia. De presente pra vocês:
~
Traidora
Eu sou a prostituta das palavras
O demônio da verdade
E a amante da mentira.
Eu vivo num cinema,
mas esqueceram de apagar a luz.
~
Prezado Senhor Redator,
Eu não gosto muito de ter que escrever para escola ou na escola, não é algo prazeroso para mim, francamente, é algo que me irrita um pouco. Enxergo uma grande complexidade nos temas e travo na hora de escrever em tão curto espaço de tempo. Acabo por escrever de um jeito obrigado, razoável aos olhos de um corretor, mas completamente medíocres perante os meus. Vejo nos meus textos o que eu nunca perderia tempo para ler, uma completa desimportância óbvia.
Grata.
~
Dicionário do Otimista

*Mas quando teu amigo te diz que a coisa ficou preta.... ele só está querendo dizer que a energia acabou por agora e, até que ela volte, vocês podem usar velas e fósforos.
*E, quando tua mãe te chamar de irresponsável, não fique triste. Ela só está querendo te informar que teu futuro artístico é bastante promissor.
*E também, quando alguém te diz que está morrendo de tédio, ele só está querendo tua companhia para colorir o resto do dia.

~

Se essa história
Se essa história fosse sua

Eu mandava
Eu mandava loucurar
Com idéias
Com idéias de brilhante

Só pro meu
Só pro meu amor passar
Nessa história
Nessa história tem um câncer
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração.

~

Autopsia



Jaz em mim um abutre. Suga meu tempo, fisga tecido, vascular, ninguém mais sabe o que escorre por esse cordão, umbilical. Que tipo de mãe sou eu? Do tipo não-mãe. Quero dizer que ele me viu e cheguei a pensar que amar estava longe do peito, era tudo junto abocanhado, meu corpo molhado e os olhos cheirando a gozo. Era. Ele me deixou sozinha, com um outro coração abaixo do peito. E eu me deixei grávida de vazio, desejando dois corações saltando fora.
Quase deixei estraçalhar o ventre por dois ou três açougueiros, vender meus tecidos à esmo. Minha carne, leiloada junto ao meu prazer. Meu corpo antes impecável viu resto, medo, medula. Só quero largar, partir, morrer, deixar...
Caminho vagarosa, feito um anel abandonado pelos dedos. Dissseram que eu mataria meu pobre abutre de abandono anelar, mas ele não merece esse meu sangue solitário; gene vulgar, gire na roda gigante dos abandonados e abandone em mim esse mau trato.
Perfure meus pulmões a bicadas, agarre meus ovários, torne-me infértil, digira meu gozo. Deixe nessa morada todo o rancor e voe, Fênix. Para fora, porque para dentro só existe vazio cheio, silêncio.
Permita-me apenas enrolar-lhe em um manto, enxergar sua pequenez e enfim libertar. Largue aqui a morte de quem nasceu deixado e rode gigante para ser o que puder.

Mãe Órfã.


~

"Por hoje é só, pessoal."

quarta-feira, 16 de julho de 2008

(pra quem eu disse isso?)

jé.' diz:
quem é o senhor?
jé.' diz:
não é senhor?
jé.' diz:
não é alguém?
jé.' diz:
céus!
jé.' diz:
é um alienígena?
jé.' diz:
ah, não? pena..
jé.' diz:
não é nada?
jé.' diz:
tudo no nada?
jé.' diz:
ah, basta!
jé.' diz:
nem que o tudo fosse tudo e o nada fosse nada
jé.' diz:
valeriam as penas de um nada que fosse tudo.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Astronomiando

imagem: detector de neutrinos - Super-Kamiokande - Japão
url: http://www-sk.icrr.u-tokyo.ac.jp/sk/index-e.html


The heavens themselves, the planets and this centre
Observe degree, priority and place,
Insisture, course, proportion, season, form,
Office and custom, in all line of order
And therefore is the glorious planet Sol
In noble eminence enthroned and sphered
Amidst the other; whose medicinable eye
Corrects the ill aspects of planets evil,
And posts, like the commandment of a king,
Sans cheque to good and bad: but when the planets
In evil mixture to disorder wander
What plagues and what portents! what mutiny!
What raging of the sea! shaking of ear
Commotion in the winds!


Shakespeare - Troilus and Cressida (ato I, cena 3)



imagem: neutrino_event


{A probabilidade de um neutrino interagir com um protão da água e dar origem a partículas detectáveis é tão pequena, que são necessários milhares de metros cúbicos de água para conseguir detectar neutrinos.}


projeto faraday


Astronomy Domine


Lime and limpid green, a second scene
A fight between the blue you once knew
Floating down, the sound resounds
Around the icy waters underground
Jupiter and Saturn, Oberon, Miranda and Titania
Neptune, Titan, stars can frighten
Blinding signs flap,
Flicker, flicker, flicker blam.
Pow, bow.
Stairway scares
Dan Dare who's there?
Lime and limpid green, the sound surrounds
The icy waters underground
Lime and limpid green, the sound surrounds
The icy waters underground


Sid Barrett (Pink Floyd)









outras imagens: NASA

p.s. tenho várias outras, mas deu preguiça de colocar.


url: http://antwrp.gsfc.nasa.gov/

quarta-feira, 2 de julho de 2008

(royo)

dispôs o órgão em uma caixa e esperava que os outros não notassem o mal cheiro dos dias. a podridão de cada célula decompondo. borrifaram em sua testa lágrimas de vermelhos colibris. e ela repousou na superfície do lago. boiava um corpo suspirando amargura.






...




acho que meu doce azedou.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Santa Teresa


Santa Teresa 31, upload feito originalmente por flexabull.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

saudade

Caminhava pela orla da Santa, os pés afundando na areia pastosa eram o único sinal de que estava ali. O breu e a lua contornavam o mar. Sentou-se, sem saber se podia. Apertou-se, feito areia, com as mãos. Apalpou o chão. Encontrou algo frio, duro e curvilíneo. O poste, às suas costas, antes queimado se acendeu. Era uma concha.
Colocou(-se) no ouvido.
As sereias cantavam.
Via o mundo todo ao contrário, de pernas coçando céu e cabeça no chão. O oceano do lado avesso, dentro dela, adentra corais. Ilana era submersa. "Me leve com você"... implorou à maré, ela recuou. Voltou. Recuou.
"Técio..."
Comia suas lágrimas com areia.
(pedaço escrito para o cantor agora de (+ de) um minuto)

domingo, 22 de junho de 2008

grand jeté


quando eu a vi pela primeira vez,
achei que toda a força que ela fazia
para se manter sustentada por uma sapatilha
era todo o chumbo perdido na perna que eu não tinha
mas não podia ser assim tão fácil
será que aquele arco de mãos poderia ser desfeito
para me segurar?
ela perderia o equilíbrio
dessa forma que eu mal me aguento
e tombo nessas noites
em que seus olhos fazem piruetas
com meu coração de chumbo
pesando nos ombros
ai, eu sei
é querer demais
eu, soldado, pedir uma valsa
em que ela encoste sua tiara na minha farda
e o mundo inteiro dance por nós
caminho para o precipício escuro
da vida que não sabe amar sobre um membro só
mas esses olhos de papel,ai
que pegam labareda tão fácil
me puxam de uma vez
tento fazer o coração asa delta
e cada vez mais rápido despenco
era lareira o que me esperava
membro a membro derreto
só a asa me resta e o delta
que o vento fez ao trazer
minha bailarina flamejante
para cinza à cinza
repousar sua tiara no meu chumbo.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

noticiário


Jéssica anda um saco: mandem-na calar a boca.



(Mágico de Oz disse para as gemas)

sábado, 14 de junho de 2008

o lírio e a porcelana

foto: angelo grace

todo dia me enchiam com água para que ele pudesse descansar
esperava que se suas pétalas não caíssem, eu teria seu aroma sempre
mas tive não
esqueceram de colocar mais água e o que havia secou
foi estranho
eu continuei perfumada por uns tempos
até que... sumiu
o lírio morreu e pediu pro vento levar o perfume
desde então
toda dia eu imploro por água
e toda noite que o vento volte
mas parece que ventanias não ouvem porcelanas.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

não sei se ocorre com vocês, tem dias que até as coisas que mais gosto me enchem o saco, dão nausea, vontade de dormir e nunca mais levantar a cara afundada do travesseiro, morrer sem ver, sem respirar, morrer, ali, de acordar profundamente.

hoje eu to assim. não consegui estudar física, não consegui fazer nada. e, é,sinto dizer (talvez nem tanto), acabo tendo sempre a possibilidade de desapontar as pessoas. uma fatalidade humana, arcar com a conseqüência do que comete ou não.

blás..

segunda-feira, 26 de maio de 2008

ausência Física


perder alguém é como perceber o comprimento de movimento na física relativística, o espaço ocupado, pela lembrança apenas agora, encolhe; tendendo a zero, o vazio que fica e a suma importância que se dá são só efeito de uma velocidade tão grande para um tempo tão curto. perdas geram um remorso do imprevisível.

, mas


talvez o carrossel não volte mais. e o que fará com moedas perdidas, os dias guardados dentro do bolso?...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

(Guga e Eu)


Seus céus e seus sóis
Desatados um a um do peito
Não sabia que costelas não possuem cadeado
Mais que roubado, arrancado e fatiado
Era homem de coração digerido.
De estômago palpitante
E pernas que não mentem
Mitocôndrias que sentem
Nas orelhas o estampido.
Mas meus medos mais miolos
Sois céus ou sóis que explodem?
No buraco do olho, caía no vazio de uma íris com estrelas,
Que os dedos não tocam e as pálpebras sentem
Cometas saltando por entre os cílios.
E na melodia, no estribilho,
os meteoros trançando seus cabelos
e as pedras - em magma -permeando, a solapar, seus pés.
Inspirava a fumaça da sua loucura carbonizada.
Ele, que era chuva em forma de fel,o homem do lado avesso.
Tocava as cordas vocais, primeiro do(r )depois sol(ar)
prostituía o corpo como instrumento musical.
E assim, seguiu-se
lá a(o ) ré do(r ) mi(nha) mão a(lá)vanca
. ( ' ).

sobre um novo coração que gera.
Dou uma dentadas.
Não!
Falta tempero,
esperar o corpo fazer-se inteiro.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

(ana)bela adormecia



procurava na cama um amasso de destino
no embaraço da colcha voava em segredo
aspirando flores de pétalas de algodão
mas ao acordar deixou os sonhos enrolados
um a um pela fiandeira do virol
e em seu pescoço a fragância de ter adormecido

.profundamente.

e acordado

na superfície

do livro de contos de fadas

domingo, 11 de maio de 2008

não me diga!

todo esse abismo em que havia me colocado
era uma enorme bolha de sabão.
tentei sentir e, ao te tocar,
acabou.

terça-feira, 29 de abril de 2008

The Libertines

domingo, 27 de abril de 2008

(achei delicioso dizer isso)




eu me sinto bem perto de você
como se me coubesse sem fazer volume..

como se já fizesse parte

... joga-me a corda?


acorda esse laço
discorda esse traço
mas, por favor,
dá-me cordão e compasso
e laça meu jogo trêspaçado.

{nó}

sábado, 26 de abril de 2008

foda

tentei encontrar outra palavra, mas emudeceu
quem, eu? não.

a palavra.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

é definitivo

estou deixando a rede.
acho que finalmente enfiei na cabeça que não quero fazer cursinho ano que vem.
e, bem, ainda quero ita. então, fora o fato de que, de qualquer forma, estou completamente fudida, preciso estudar mais que o mundo inteiro sem ficar neurótica e maluca (o que pode ser a parte mais difícil).
deixo a vocês um abraço,

ao rafael, você sabe como me achar;
ao ivan, obrigada por passar por aqui e boa sorte com seu blog;
a liana e a penca de fantasmas que aqui habitam e não se pronunciam, ainda amo vocês.

Jéssica.

terça-feira, 15 de abril de 2008

aviãozinho pro rafael

fui pro pensol.

@;

sobre o sonho (ou sobre o orgasmo)


é a forma que o pé toca o céu

sem deixar de apalpar o chão
'
.
{pode chocar, não to nem aí.}

tive uma idéia brilhante!

vou escrever outra história gigante esse ano
aí se eu não passar no vestibular, ao menos eu escrevi um livro.
hahahahahaha

bah! já to lesada, hoje eu dei pra cismar que 90º eram pi/4 .
e dias atrás que 2.2.2/3 = 2.
diria o aroldo: deus ó livre.

bom, vão ouvir zeca baleiro-babylon:

"nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça"

'
.

na saúde e na doença



o templo que construo é meu e dos trinta mil egos de cada noite
e, se assim couber, é o único compromisso que atenho a cumprir
eu e os trinta mil egos, decifrando as derivações formais do céu de isopor
e quantas borboletas houver no lençol
e quantas idéias houver no pensol

.

'

segunda-feira, 14 de abril de 2008

antropofagia




- a morte é morta

- e vc morreu ?

- parece que sim

- de quê ?

- ainda estou na dúvida, não terminaram a necropsia

- você tinha que morrer é de amor para ver como é bom


mas de amor ela já havia morrido todas as outras vezes.
dessa, a dor lhe acometeu por não-amar.
e teria como sobreviver assim?
o laudo saiu às pressas: a morta devorara o coração.

sobre o suicídio


e se de repente eu premeditasse o fim, não houvesse o que carregar, não houvesse o que caminhar. infindável cheio. seria só assumir e prepotência. morte por antecipação. matrimônio de funeral acertado. eu, eu, eu. ego.ístado de iminência entre a navalha e a aorta. minha última porta. jorrando para fora toda forma de energia e para dentro a secura do tempo. e o fardo é a secura. o medo de se afogar se foi, ficou o deserto arenoso e o sonho do oásis. o iminente fim finda o corpo apregoado de jazer aquém. a alma em resposta é perfurada por sonda, a mesma que filtra o resto de delírio bondoso. determinada a caminhar, carregar, infinito vazio. ela foi vacinada contra a felicidade. e vacinada e triste fica, e vacinada e triste não termina.

ôoo Rabuguinha


quinta-feira, 10 de abril de 2008

(poema paleozóico)


e as minhas estrelas caídas sobre o chão tentam germinar.

quando é dia, as rosas ofuscam o seu brilho, mas a noite sempre chega...

mostrando que a verdade está em nichos que a luz oculta

e a escuridão enxerga.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Ele vive dizendo "é você que não compreendo"...


mas entre um ser humano e outro

existem abismos incompreensíveis.

Sucata


Bem, eu não sei se você já teve o (des)prazer de me ver puta. Hoje aconteceu uma coisa que me chateou muito. E, sim, eu fiquei putamente puta. (se você entende o que eu quero dizer). Um colega lascou a mão no meu peito. Isso mesmo: lascou. A única desculpa que ele me deu foi: ah, me esqueci que doía. Puta merda, né. Ótimo pra ELE. Maravilhosos direitos iguais, ele diz que eu sou sensacionalista e eu revido com "me deixa apalpar suas bolas, então, sensacional, não?". Olhares abismados de "gente! ela disse bolas!". Ha, digo coisas piores, se é que isso é pior.

Dá vontade de nem ser mulher mais. Raiva. Muita raiva. Já percebeu como objeto a gente vai ficando ? Eu, que não tenho libido, boca suja, mulher. Não posso fazer mecânica, não posso entender de motor, não posso ir pra instituto militar, não posso ser inventora. Isso é coisa de macho!

Vão pra merda, machistas! Meu ilustríssimo (satânico) ex-namorado disse mesmo:

- É por esse caminho mesmo... Se você conseguir...

He-he, também te amo, amor. Adoro os incentivos! Outro dia fui atrás de um cursinho específico pra aeronautica, mal pisei ali e riram na minha cara. Motivo? Mulher, colegas... Ou seria melhor dizendo, cócegas?
Não quero casar. Não gosto de comemorações com pessoas me cercando, nem de vestidos brancos, muito menos de promessas no altar facilmente quebráveis. Embora também não negue a possibilidade de morar com alguém. Mas que alguém, né? Meus quesitos são tão vagos... O problema é que a maioria não suporta se equilibrar, é tão mais fácil ser favorecido....
"Você é complicada demais, Jéssica!". Eu, não, sou muito simples, o mundo é que entorta e por esse motivo paga, tendo que me suportar. Simples, porém difícil de desfazer.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Abner e Katy


(diz uma menina que
abraça o violão
quando tem
saudade)

Era mais meu amigo do que instrumento. De vez em quando, eu o usava para sustentar o vazio, mas na maioria das vezes ele sustentava sinfonias. Guardava no calor todos os sons entendíveis apenas por um violão. E no sorriso, o arranjo perfeito entre as minhas mãos.
Era homem.
Tinha o corpo calejado, cheio de defeitos e a história pelo meio. Carregava no peito uma partitura. Não sabia se em sol ou dó.
Avistei cantarolando em meu caderno um piano rubro.
Delimitava em fá's mi-lá-si-ando.


(aaai, eu vou terminar, juro.)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Cara

eu queria falar com você. não. eu não queria falar nada. eu queria que você me olhasse outra vez com aqueles olhos de que entende tudo. de que me entende tudo. e risse dessa minha teimosia em tentar achar resposta pro que não deve ter. queria mesmo era te guardar do meu lado de um jeito menos conotativo. e que não houvesse mais com quem eu gostasse de conversar só porque me lembrava você. haveria você. menos quases. você. engraçado, chega a ser quase patético, como eu ainda teimo em buscar as palavras certas pra te dizer o que eu não sei. e você aí, parado, nesse porta-retrato da minha estante. rindo. será que ri? eu queria que o riso continuasse. e chegasse no fim. em vez desse riso infinito em que eu não te tenho mais. queria um em que eu fosse o motivo dele e outro fim. e outro começo. mas parou. bem no meiozinho. não tem fim, nem começo mais. e eu tento te dizer todas as palavras certas, porque... só me restou o seu silêncio. tão cheio. e eu preciso te catar nele. feito uma peregrina cega no meio da selva amazônica, sujeita a qualquer tipo de precipício. eu vou descascando tudo feito cebola. e choro. bem baixo. de vez em quando até a lágrima briga pra não descer e não incomodar o rosto. você não ouve. eu tento me iludir que é porque o som é muito baixo. queria te perguntar se aí faz muito frio, mas não sei se existe aí. na chácara ventava tanto. tem tempo que eu não me vejo ventando por lá. alguém podou as árvores. elas cresceram de volta. a verdade é... aqui tá uma merda, cara. deixa esse retrato, faz favor.
...
por favor, não comentem esse texto.

tentou escrever muda


mas rabiscar era o grito
que revidava na face
do som que engolia.

Televisão combate disfemismo

Ah, se quer saber mesmo, discordo. Discordo, porque achar que tevê dita a ordem na cabeça de toda a gente, entre os plim-plins e o sofá das casas bahia, é o mesmo que negar que não existe acordo com a vida medíocre que se leva ou que se é obrigado a levar. Não, não existe isso de que a qualidade televisiva é péssima apenas aqui, Brasil, país-sub. Para ser franca, os programas de alto ibope são sempre porcalhões em qualquer canto e sub-espaço do mundo. E, casos vocês se interessem pelo motivo, experimentem passar um dia inteiro observando as pessoas com quem convivem. Elas estão sempre preocupadas com a conta do aluguel, a janela que emperrou, o casamento que não chega e aquele que não vai bem, a roupa da festa do sábado, ..., não é mesmo? No final das contas, compras e causos, todas precisam de um placebo, algo que as faça esquecer que o chefe talvez corte seus salários, a moça da esquina teve um caso com o marido da outra e todo o resto da vida imperfeita que levam. Aí a televisão entra, enviando vibrações ilusivas, vidas perfeitas, romances que terminam sempre felizes, assuntos chocantes, os babados dos famosos... Seria isso ruim? Respondam-me vocês. Sentadas, elas recebem uma nova vida tão perto e tão distante da que levam. Mas não há o que mudar, precisam e cada uma delas, mesmo que seja inconsciente, sabe que precisa de ser vendida, ser comprada, receber notícias pelas metades, a realidade sob um ângulo econômico... Desse jeito eufêmico, porque a realidade crua é como nudez em praça pública, vulgar demais. Para quem diz que não assiste programa algum, vale dizer que não é mais privilegiado. Faz parte do grupo dos que se olham no espelho e não sabem de onde vieram as cincunstâncias do mundo em que se encaixam. Não estou defendendo a tevê, ela manipula, sim, mas apenas quando seus espectadores pedem para serem dominados, o que acontece na maioria dos casos. Verdade é, o eufemismo é bom, mas na dose certa: não dá para ignorar um peladão na praça pública, só porque na televisão isso é nu artístico.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

(achei na minha pasta de desenho)

Se se morre de cor,...

' eu precisaria de olhos mais compactos
e você de escolhas mais sensatas


Bel.

(meu outro ego)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Caramel




Carmelita ia com seus sapatos cor de mel
caminhando pelas ruas de papel
com seu sotaque carmel de deixar de dó
e toda avenida quase se suicida de tanta corrida
por seus olhos camelos, vagarosos sujeitos
perto dos cabelos caracóis, georgóis dos céus
fazendo pose de beldade bebendo na cidade
ia seu sotaque rouco roendo a puberdade
e se perguntando, o que é realmente a felicidade?
nessa festa via o mundo todo besta
com rabo de coelho e nariz de elefante
montou foi num camelo a procura do azul rinoceronte
girando pelo globo, Carmelita tropeça em caracóis
e pergunta, por que sois sóis tão amarelos?
sem saber onde que começa ou finda
ela caminha em busca do Senhor Caramelo
que de tanto doce saiu testando todo sal da terra
e por essa vida todo mundo quase grita
essa menina Carmelita e seu camelo caracol

domingo, 23 de março de 2008

Ele


carregou o sol nas mãos. carregou o mundo inteiro e mais um pouco de tão leve. queimando, a estrela brincava de roçar luz pelos seus dedos. ele inspirava o vento solar, expirava ar cósmico. guardava o momento sem a pressa, sentou ao chão, abriu o peito, deixou-se, invadido pelo nada. pelo tudo. era sol, estrela, nada, tudo. carregou-se para fora e repousou as mãos para cima sobre os joelhos, esperando ser preenchido. roçou-se com luz. invadido, joardo brincava de sol. joardo era sol, estrela, nada, tudo.

só queria maçãs



foto: Cristian Phillips
edição: Carol Stieler
url: http://flickr.com/photos/wing-it/ ou http://flickr.com/photos/dustflow


disseram que eu devia me deixar em paz. abocanhar o seu prazer e me esquecer. imagino tentar testar meu sexo sozinha. imagino carregar o prazer com pilhas. é tão sensual ser só hoje em dia: posso carregar meu amor com meu cartão de crédito. até onde você me carregaria? no seu bolso, no seu gozo, nos seus olhos? qualquer um seria mais. mais do que eu chego pedante ao prostíbulo da esquina e peço o mecânico. mais. fruto proibido. de tão livre se perdeu. na época dos bacanais ainda podia ser chamada de desvirtuosa e amaldiçoada. hoje eu só queria maçãs. mas até elas estão no supermercado.

para que os hormônios não me tornem parcial,


não sou uma mulher que costuma ter tpm. na verdade, eu me sinto até meio macho, quase não fico menstruada. é, sério. tenho algum tipo de problema hormonal (que não sei falar o nome)(e que fique claro que biologia não é meu forte), que me deixa meses e meses sem o tal sangue nas ventas. mas quando meu endométrio descama, descama com gosto. do tipo de dar cólicas horríveis e semana todinha usando noturno. mas isso não vem ao caso... quero dizer; tenho dias de homem. daqueles em que eu me sinto uma desgraça enorme e ajo o mais prepotente possível. não que isso seja másculo, mas homem tem disso mesmo sem tpm.

eu carrego meu corpo pela sala e atravesso a sacada do meu apartamento, jogo a base ao chão e abraço meus joelhos, como se meios termos bastassem. escondida, atrás do sofázinho da minha mãe, eu fito o canteiro e o canteiro me fita. lá, eu me descasco feito cebola. mas nesses dias eu não choro. em cada capa que eu retiro, procuro um alguém para ver se encaixa, ver se entende, ver se alcança. nada! toda crosta se vai, resta apenas uma mancha de líquido sulfuroso e ninguém. cada pedacinho, uma visão parcial de alguém que me escapuliu. sobra em mim aquela vontade enorme de me dividir e um vazio. os restos e o vazio. não há encaixe, não há encontro.

só assim que eu descubro. não existe par. talvez um quase-par. as pessoas não foram feitas para serem encaixadas. todas, números ímpares, quase se encaixam. os amantes se soldam, os aversos se atritam, os sozinhos sonham com encaixes perfeitos. eu, desviada, me sinto prostituída de tanto não-saber, penso que talvez expressar seja em vão, mas o vão é o que fica sem as cascas. quase-encaixes... a imperfeição torna tudo mesmo suficiente, não é? o cheio dos outros e o vazio seu equilibrados para que não falte espaço para ser e des-ser o tempo inteiro.

sexta-feira, 21 de março de 2008

eu sou escritora




desde sempre
desde antes de nascer
desde quando o espermatozóide disse pro óvulo:


- oi, tudo bem? fiz um poema pra você.

quinta-feira, 13 de março de 2008

nesses dias tão à vácuo...

foto: lily donaldson
se quer saber onde eu coloco minha profundidade
pra não falar que enfio no buraco
jogo na privada e dou descarga
.

quarta-feira, 12 de março de 2008

De maneira poética!


Queria saber quem foi o infeliz que pela primeira vez conotou a poesia como visão bela da palavra... Poesia está para vida tal qual cor está para tinta, existem dias de escuridão. Dias, muitos dias, em que uma nuvem de poeira cola nossas pálpebras e ficamos apenas com o irreal, acreditando que aquele verde da bandeira é o Brasil-multi: multiplicada fauna, multiplicada riqueza, multiplicada esperança, o Brasil de todos.

Crescimento, é essa a palavra, mas o país já é enorme, não é mesmo? Crescer para quê?! O crescimento econômico da China e da Índia nos últimos anos beneficiou a América Latina, o Brasil não precisa se auto-beneficiar... Afinal nós somos um país multi-ético, sem preconceito, sem desigualdades, é por isso que a mulher latino-americana ainda recebe salário entre 20% e 30% menor do que o homem nas mesmas atividades.

É, pessoal, vamos potencializar o jovem do tráfico de drogas! Ele salvará sua comunidade, investimentos na educação de base não. Melhores qualificações e empregos... Quem precisa disso? Nós somos um povo bonito, povo do futebol, povo que samba! Se nada tem, faz um batuque, faz um rebolado, não reclama, não luta, não muda... ginga!

Ainda tem quem tente abrir os olhos, passar um pano úmido na poeira, fitar o lema nacional estirado em mastros, mas ao procurar o verde exuberante encontra uma mancha negra. Feito um buraco, ela parece engolir o losango, o globo e toda a ordem e progresso. Quem tem coragem fita que todo o excesso de esperança virou desespero profano, em que cada passo do sambista é um andar em falso.

sexta-feira, 7 de março de 2008

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!

Tô ficando louca! Juro! não consigo escrever nada! nem meia palavrinha...
o terceiro ano me parece um livro de auto-ajuda, faz parecer que desde o início você é uma merda maior ainda.
o Rodrigo disse uma vez que todo mundo tem um consolo, seja um Deus ou um vibrador.
não tenho nenhum dos dois.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

mas e se ser amoral


for cometer atos de amor?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

(preferia escrever informal mesmo, mas foi assim que pariu)

Segunda, 28 de Janeiro de 2008

Hoje comi acerolas. Andei três quadras e lá estavam elas, fora do lixo, caídas, apodrecendo no chão. Foi a melhor coisa que eu comi esse mês, tive sorte. É, sorte, tem quem ache que não, mas eu mal reconheço mais o novo. Tudo meu é o indesejável de alguém, até chego a me ver como fábrica de reciclagem. Eu, o catador de lixo, o catador de indesejo.
Quando eu ainda podia ir para escola, minha professora dizia que o certo é lavar as mãos antes de comer, a comida limpa tinha que ser privada da sujeira do mundo que eu tocava. Hoje, eu vi as acerolas e me senti tão imundo quanto elas, apodrecendo, desperdiçado, indesejado. Talvez seja mesmo verdade, " a gente é o que faz".
Mas ainda me lembro - e é difícil não lembrar - que o que reciclo é a parte descartável da vontade de outro, o rastro deixado por desperdício. E é bem verdade que eu só posso ter o lixo, sou fruto do mesmo dissabor que ele. Consumo o desperdício, sendo desperdiçado. De quê vale escrever? Como se diários respondessem... Escrever para que o Senhor não se esqueça de mim , ao menos Ele, que não me falte o que reciclar, que não me falte o que não faz falta, porque é dos restos que me faço inteiro.
Preciso de sapatos novos, esses já não consigo mais remendar. Colcha-de-retalhos, a falta me ensinou a remendar e , desde então, vivo todo costurado, com os pedaços que me cabem ou que sou obrigado a me fazer caber. Agora, durmo acerola apodrecida, mas, amanhã, serei o que houver no caminho mais ainda.
Boa noite, Diário, vou deixar que você descanse.
P. L.
aaaai! que síndrome do aladim essa minha!
ficar procurando mágica pra resolver coisas de maria, joão, clarice, fulano, claudio, beutrano. trocar o coração por cubos gelo.
é, talvez não seja uma boa idéia...
*
estado emocional: sob efeito de narcóticos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Decote Visceral


Abriu o armário do corpo, buscava com as mãos o melhor traje, tecidos que não escondessem o cordão, umbilical, recentemente cortado.

Pensou em desfazer os nós dos olhos, mas já haviam sido desfeitos, cada pupila um nó de outro,
( , )
.Esse que partiu.

Nua, apalpou, em carne viva, a abertura frontal, que cortava o coração num descompasso, arrancando o ar dos pulmões, expurgando brônquios, alvéolos e borboletas. Tocou a fenda da perna, não podia se mover. Os pensamentos infeccionados eram em vão lavados por lágrimas.

A morte é uma perda inafiançável.

Elephant

domingo, 17 de fevereiro de 2008

primeiro folha, depois raíz

ela queria estar longe, fincada, queria estar eternamente frondosa. e, quanto mais queria, mais estava parada no mesmo ponto final, sem partida. nem eterna, nem frondosa, nem distante, era semente estéril.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

" Verdade é que, muitas vezes, a forma final da matéria não corresponde à intenção do artista, porque, na sua surdez, a matéria sustenta teimosias deformantes."
Dante Alighieri.
Desisti do cinema. Não porque a atração acabou, mas porque fazer um curso de arte não muda a poesia que eu já carrego comigo. O cinema continua, o curso é que se foi. Por enquanto, (acendam velas) vou entrar na engenharia mecânica. Amo matemática, não tanto quanto minhas letrinhas, mas a vontade de ser inventora é grandinha desde sempre.
bêijos *=
*-* encontro-me estudando pra aeronáutica.


me senti vidrada
não de êxtase,
mas empacotada.
guardada em lacre
no fundo da prateleira
do setor B.
(tive que gritar o mudo
até exceder o prazo de validade.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

borboleta engaiolada

mas a alma é muito grande
para escapar por uma fresta
nessa cela, ilimitada, ela voa... voa,
batendo asas às avessas.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

porque só o scooby entende o salsicha *=

pedro: vc vai prestar vestibular pra que?

jéssica: essa é uma outra dúvida, do tipo:

"eu sei que jornalismo é a melhor opção,
mas eu não quero "ter" que escrever,
mas eu gosto de criar
e fotografia é um máximo
então vou fazer cinema!

mãe : jéssica, você vai jogar anos da sua vida no lixo com cinema.

filosofia é um curso legal

mãe: vou te deserdar

aaaaaaah, eu queria mesmo ser astronauta.

fim."

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Fumo e Flores

, sentiu-se úlcera. o corpo contraía a raiva que nenhuma anti-rábica dosaria, enquanto as paredes dos órgãos em resposta iam se corroendo. e pelos buracos ácidos não escorria dor. não. a dor já tinha ido às sucumbas do extremo em dormência. o corpo se liquefazia em ácido e a alma escorria, enfim, liberta.
Karen se sentou. O frio no estômago lhe provocava um terremoto de calor nas bochechas e outro, ainda maior, de desequilíbrio nos pés. Não sabia até que ponto podia ir sozinha, o guarda-roupa vazio e as gavetas reviradas denunciavam: ele levara tudo, menos o desespero. Acendeu um cigarro. "Fumo flores, amor", ele dizia. Esbugalhou suas pétalas e levou o aroma.

O quarto vazio, a teoria nórdica do acaso, " o que há de errado comigo?". A lágrima escorria, "não era a primeira vez", acompanhada. Ao menos suas lágrimas deviam ser acompanhadas, pensou. Outro cigarro, "acho que vou precisar de mais de um maço hoje". Karen era uma mulher independente, "mas ser independente leva a uma série de novas dependências".

Ela se inclinou, desabotoou as sandálias e deixou que os pés escorregassem de encontro ao chão. " Como é bom sentir o chão". Era tudo o que tinha, tudo no que podia confiar. O chão nunca a deixaria. Os pés calejados e antes adormecidos deixavam o frio do piso invadir seu desespero. Congelar seu desespero. " E a calma é o resultado de um calor congelado". "Preciso de terra". " Sentir terra nas ventas".

Como uma sinapse abrupta, ela se levantou, meio que a se recordar de que sabia caminhar, e correu, meio que a se recordar de que não queria esfriar, para o quintal. Tomou um punhado de terra com as mãos e levou às narinas. "Ah, o pó...". Soprou. "Do pó viestes, ao pó retornarás". A terra plana e cai por terra, um breve vôo para repousar onde partiu.

Deixou o corpo desabar, as pernas cederem e os braços se enlaçarem. Queria se ver por dentro. Tragou-se. Sentiu se invadir por fumo próprio e "pulsar". Tinha o coração que bombeava vazio, "apenas poeira". Cósmica, Karen se julgou dona de um astrolábio, "o pegador de estrelas".


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

precisa-se de poemas

.
melhor seria se a fidelidade fosse escura, perceptível em raros casos.
morrendo assim tão sem jeito, debaixo dos lençóis, embrulhada aos desejos impossíveis.
a singela diferença entre pensar com meus botões e em meus botões.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

boas férias (=


segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

sabe...


essa coisa de gostar de escrever? não foi bem assim : um dia eu acordei e disse "vou ser escritora". aconteceu que um dia eu perdi a vergonha e falei que não gostava de bonecas e que nunca tinha gostado delas. queria livros. isso. livros. desde os oito, eu só ganho livros. (tá, que eu também ganhava umas roupas só pra minha mãe ficar feliz)

meu vô morava numa chácara dentro da cidade, eu ia todos os fins de semanas com a minha mãe pra lá. geralmente porque a família dela toda se reunia. todos os meus primos inventavam de fazer alguma coisa, seja caçar borboletas (o que sempre rendia uma briga infindável comigo) ou tentar colocar fogo em montes de folhas secas.

mas o que me entretinha mesmo era meu vô. ele ficava a maior parte do tempo dentro da sua salinha empoeirada. a biblioteca. era tanto livro que eu nem conseguia contar, ficava horas parada na janelinha olhando e os livros olhavam de volta para mim. vivia pedindo pro meu vô pra entrar lá, ele nunca deixou, disse que era só eu dizer o nome que ele me trazia o livro. nunca consegui escolher um. coloquei na cabeça que aquele era o esconderijo do meu vô, um esconderijo tão escondido que todos sabiam dele, mas quase ninguém sabia o que era na verdade. eu não podia invadir o esconderijo dele, eu tinha que criar o meu.

naquela época, eu achava que as coisas eram muito óbvias e que salvar o mundo era muito fácil. e quanto mais eu achava isso, mais eu desachava. minhas idéias eram sempre motivos de risos ou simplesmente ignoradas, claro, eu era só uma menininha boba, pensando que o mundo faz sentido. vivia reclamando pro meu vô, ele só ria. não concordava, nem discordava, mas entendia. essa era particulamente a melhor parte, ninguém queria me entender, só ele.

as minhas brincadeiras na infância eram todas imaginárias, odiava pique-esconde, batata quente, elefante colorido, gostava mesmo era de inventar outro mundo. com os vestidos velhos da minha vó, eu era a imperatriz das esponjas falantes ou quem sabe a fada madrinha das largatas.

quando eu comecei a escrever, não foi tão difícil assim, era como se eu já estivesse escrevendo sempre, antes de ter nascido, e tudo que eu tivesse feito fosse escrever. foi só ganhar o primeiro livro de poesia que eu escrevi poema pra tudo quanto é coisa que eu via. flor, balão, gente, abacate, bicicleta, caco de vidro. amor. xi, quando entrou nessa onda de amor, parou foi tudo. demorei um tempão pra entender que amor é um mínimo múltiplo comum de milhares formas de amores. e que falar de amor é também falar da vida.

acho que escrever é minha forma de amar. não sei explicar isso muito bem, só sei que foi assim que eu aprendi. mais difícil que concordar ou não com alguma coisa é entender. e certas coisas no mundo precisam ser apenas entendidas, mesmo que fujam a razão, o amor é uma delas.

domingo, 6 de janeiro de 2008


o meu melhor amigo tem uma coisa que ninguém mais tem. talvez porque só ele saiba que um pedaço que a gente leva por dentro não é nosso. metade da gente já se perdeu por aí e outra metade se encaixa com o que se ganhou no mundo.

(mesmo que seja um incalculável vazio)

se eu fosse uma holotúria no ataque, ao jogar pra fora a maranha inteira das minhas entranhas, coração, intestino, pulmões, fígados, órgãos reprodutores, encontraria restando, dentro de mim esvaziada, apenas o guilherme.

porque metade de mim é onde eu me coloco e a outra metade é onde eu levo o guilherme comigo. parece uma relação de dependência, mas só parece, metade de mim é o que me carrega e a outra metade é onde eu guardo o melhor do mundo.

(eu também te amo).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

(uma insônia)( *odiei isso)

a razão pregou um tumor a machadadas invisíveis. uma ânsia de correr e falar incapazes. asco. a incerteza golpeia, escorrendo do corte profundo. o furo do espinho. ( minha flor só tem espinhos)
no meu tormento, as paredes respiram. e eu fiquei acordada só para ouvir o silêncio. distando a noite do dia, a madrugada guarda um grito desesperado. (pelo silêncio que sufoca)
para onde foram as cores? para onde vai a vida quando a morte engole? pó? não. como? em que lugar cabe o apreço por viver e o que te leva a loucura? até onde a insanidade vai mostrar que o que é vivo talvez já morreu sem dizer de onde a vida nasce?

perfume

se você não for capaz de me amar até a última gota.
então não perca tempo, tentando cativar um aroma
incompreensível.

(más línguas)

dizem que o choro começa quando uma gota salgada desce do olho. cortando a face delicado. desce. como que tentando apagar um incêndio interno. labareda alcoólica. transparente. mas não. o choro começa de uma lágrima que fervilha lá de dentro. num poço escaldante de dor. o choro é o que transborda. o insuportável.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

coisas que eu (não) sei

se houvesse razão de ser, o mundo faria dor. com gota, pétala e travesseiro. existe algo que implica sem ter culpa, um erro tão meu que não cometi. existe. tanto que nem dá pra dizer. o quanto que caberia dentro do que já cabe. nesse silêncio. tão alto. que arrebenta os tímpanos. a voz seca. as cordas num embaraço profundo. não sabem se seguem. o corpo volúvel que se entrega. escondido. a outro que sabe tão bem de uma entrega secreta. sua. tão mútua que é virgem. meu. eu te amo calado.

sábado, 15 de dezembro de 2007

( Olha o que excesso de Nietzsche causa )


O homem, criador, cria sua crença, criatura, para ser criadora
para que ele não tenha mais culpa pelo o que cria.

Deus cria o homem para os mesmos fins.



ps:
continuo escrevendo a grandona!
ps2:
o livre-arbítrio deu origem a imperfeição.

ps3:
casulos de pedra doem, mas também são quebráveis.

ps4:
márcio, quero café em vez de chá(, mas rola um pf belê).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

estou escrevendo uma história um tanto maior que o normal.
espero que funcione...
desculpa se eu não respondi alguma coisa no orkut ou aqui :/
to meio abalada com a minha novela pessoal.

whatever..

não se esqueçam de quebrar seus casulos!
beijo *:

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Quem?

domingo, 2 de dezembro de 2007

sobre a genialidade e outros afins...


Nietzsche não é um gênio, é um mágico. Ele despe a verdade, mas não ensina como fazê-lo. Porque o que segue a vontade de todo mágico (ou ao menos o que deveria ser) não é vislumbrar, impressionar, chocar, é impulsionar o outro a achar sua própria verdade. Daí os olhos que não alcançam atribuem isso de magia.

Eu não gosto de atribuir genialidade às pessoas, acho que todo mundo tem essa capacidade. O que é difícil mesmo é ter um olho virado para dentro e outro para fora e, de vez em quando, eles trocarem de posições. Não adianta costurar só para dentro ou só para fora, isso se torna apenas redundantemente inútil. As pessoas precisam aprender a subir para cima e descer para baixo (por mais que tudo soe maluco). Afinal, só a loucura enxerga estrelas, a verdade está no que a escuridão avista e a claridade esconde.

E , de qualquer forma, os mágicos não usam truques, usam metáforas.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

meu bem,



eu montei uma flor que,
quando se gira,
suas pétalas viram borboletas
que caem batendo as asas...
e, em lugares que ventam,
elas voam...
por isso montei meu coração
pra bater asas
e não pulsar
mais importante que
bombear sangue
é voar, amor
é voar

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

minha contribuição em: a princesa que sorria enquanto dormia

fotografia : http://olhares.aeiou.pt/___p_u_r_a___/foto1595543.html
E tudo pareceu girar, foi como se embalasse em uma dança de ondas, uma lágrima ao tocar o chão inundou o mundo com o que existe de mais profundo, enquanto a outra foi absorvida por seu corpo, levando uma maré de cores até suas entranhas. A princesa se assustou ao perceber a resposta que sempre esteve tão próxima.


Sozinha, os fantasmas do abandono não a deixavam enxergar que a vida está na arte de caminhar,


pesarosamente... um passo de cada vez...


fazendo parecer que o fim da dor seria permanecer estática, afundada na grama aconchegante, onde nada poderia e chegaria a permear a esfera transparente que a envolvia contra o resto do mundo. Mas a dor não se ia. Como se estivesse a todo tempo escondida embaixo de folhas secas, a dor continuava a martelar.



Mas a dor velada nem a amizade suporta, ela é encarada como é, nem maior e nem de menor significância, é dor, apenas dor. Em companhia, a dor passa e volta de outro modo, de uma forma inesperada, mas de algum jeito o corpo fica preparado, porque os olhos são outros. Com amigo, a dor é partilhada.

E foi aí que a princesa percebeu que seu maior tesouro estava além do castelo e tinha mais do que bases sólidas, tinha um abraço grande, tão grande que era feito de uma grandiosidade que só se encontra em coisas pequenas.


Feito flor em botão, ela dormia e, a cada pétala que se soltava, uma parte de seu corpo acordava, lentamente, um passo de cada vez... E quando o pesar desprendeu-se de seus olhos, ela levantou seu tronco, juntou os joelhos, abraçou-se... E ao contemplar-se daquele modo, a flor desabrochou, o sorriso dormente explodiu em um riso alto e puro, como se as velhas lembranças fossem apenas obstáculos que se tornaram caminhos amigáveis.

domingo, 25 de novembro de 2007

A cor da morte


fotografia: http://olhares.aeiou.pt/im_falling/foto1569189.html

- eu vou fazê um coração dentru da arvri...
- mas árvore tem coração?
- omé, tem, só que a gente não iscuta...
- é por isso que a gente não ouve ela falar de amor?
- arvri não usa palavra, é de ôotro jeito.
- ah, ta...

E Matias finalmente deixou Cora em paz. Nenhuma de suas intervenções conseguiu trazê-la para longe de seu mundo. Era assim que via. Era assim que era. Ele, então, repousou os cotovelos na mesa e tentou não pensar no jardim desenhado da sua irmã.
Como ela poderia realmente achar isso, se plantas tem vasos condutores, como ela...pensou ele... Mas seus devaneios foram interropidos por um barulho estrondoso em meio aquele silêncio que reinava. Cora amassara o papel.

- mas, menina! Por quê você fez isso?
- cê num enxerga o que eu vejo.
- e você só percebeu isso agora?
- não, mas deve ser purquê ela só confia ni mim. só eu pode saber.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela saiu correndo rumo ao jardim de verdade, os fundos da casa, aquela parte que não era sua imaginação sozinha. Ali, sua vida comungava dos sonhos, coisa que ninguém entendia, mas fazia motivo para o abismo entre os dois.
Duas crianças nascidas na roça, uma muito das estudadas, outra nem tanto. A primeira tinha essa mania feia de ler a vida corrigindo, enquanto a segunda sabia que coisa bonita é tropeço.
Existiam, mas só uma sabia a diferença. Pois apenas Cora a vivia.